Archive for setembro \21\UTC 2008

O brilhante futuro da cana

 

 

18.09.2008

Açúcar e álcool são apenas o começo. Inovações nas usinas e nos laboratórios vão transformar a cana em bioplástico, diesel e energia elétrica — e dar origem às biorrefinarias

 

Por Denise Dweck

EXAME Os 2,5 milhões de brasileiros que compraram um carro flex no ano passado sabem que o etanol não é um substituto definitivo para a gasolina, mas é uma alternativa importante e muitas vezes mais barata. O que esses consumidores provavelmente não sabem é que os produtores de cana-de-açúcar têm ambições que vão muito além dos tanques de combustível. Graças a um enorme potencial energético e a uma torrente de inovações, que vão da biotecnologia às caldeiras utilizadas nas usinas, a cana pode ter pela frente um futuro promissor — e muito semelhante ao do petróleo. O açúcar da cana pode ser transformado em vários derivados, assim como o óleo cru dá origem à gasolina, ao querosene e a uma enorme gama de petroquímicos. “As usinas de açúcar e álcool vão virar usinas de garapa e bagaço”, diz Fernando Reinach, diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, controladora de empresas de biotecnologia especializadas no melhoramento genético da cana. “De acordo com as condições do mercado, elas vão poder decidir o que fazer com esses produtos básicos.”

Um dos melhores exemplos é o do grupo Santelisa Vale, do interior de São Paulo. A Crystalsev, empresa do grupo, associou-se à Amyris, empresa de biotecnologia da Califórnia, para produzir diesel, gasolina e querosene de aviação à base de caldo da cana. Em vez de passar por uma fermentação tradicional, os organismos geneticamente modificados da Amyris dão origem a produtos que têm as mesmas características dos combustíveis fósseis originais. As leveduras transformam o açúcar em hidrocarbonetos. A nova empresa terá uma produção piloto em Campinas, no interior paulista, que começará a operar em fevereiro. A estimativa é que a primeira safra renda 20 milhões de litros de diesel. Por enquanto, a produção deve ser usada em misturas com o diesel comum. Mas a Amyris pretende fazer parcerias com outras usinas a partir de 2011. “Queremos ser competitivos com o diesel fóssil com o barril de petróleo caindo até 70 dólares”, diz o belga Roel Collier, diretor-geral da Amyris no Brasil.

É justamente a recente alta do preço do petróleo, somada às preocupações ambientais, que ajudou a resgatar uma indústria derivada da cana: a alcoolquímica. Até os anos 60, muitos plásticos eram feitos da planta. Mas com a expansão da exploração do petróleo, a queda do preço e a expansão do setor petroquímico, a alcoolquímica deixou de ser competitiva e perdeu espaço. Hoje, diversas empresas, inclusive as petroquímicas, estão interessadas nos bioplásticos, feitos de fontes renováveis. Em uma unidade piloto no Rio Grande do Sul, a Braskem está produzindo polietileno de etanol. É exatamente o mesmo polietileno feito da nafta petroquímica, usado em potes de iogurte, tanques de combustível e sacolas plásticas. Um dos primeiros clientes já anunciados é a fabricante de brinquedos Estrela, que usa o plástico para fazer peças de jogos como o tradicional Banco Imobiliário.

A maior parte da produção anual de 200 000 toneladas prevista para 2010, porém, deve ser comprada por empresas estrangeiras. “Estamos posicionando esse plástico como produto premium”, diz Luiz Nitschke, responsável pelo projeto de polietileno verde da Braskem. “Ele é feito de fonte renovável e, durante o crescimento, a cana retira gás carbônico da atmosfera.” Há empresas investindo também em plásticos biodegradáveis de cana, como é o caso da PHB Industrial, fabricante de bioplásticos, sediada em Serrana, próximo a Ribeirão Preto. Os plásticos podem ser usados no lugar do polipropileno em canetas, potes de cosméticos, aparelhos eletrônicos e até em peças de automóveis, como painéis e pára-choques. “Em condições normais, esses plásticos duram muito. Mas em contato com bactérias, como em um lixão, eles se desintegram em 180 dias”, diz Sylvio Ortega, diretor executivo da PHB Industrial.

Aceleração tecnológica

Em média, os bioplásticos são 30% mais caros que os plásticos convencionais. Apesar do preço alto, estima-se que eles possam representar 10% do total do mercado brasileiro em 2012. De olho nesse potencial, a belgo-argentina Solvay Indupa assinou um contrato com a cooperativa de produtores de álcool e açúcar Copersucar para o fornecimento do etanol que será usado na fabricação de PVC. Na mesma linha de parcerias, a gigante do setor Dow Chemical buscou a Crystalsev para montar o primeiro pólo alcoolquímico integrado do mundo na região do Triângulo Mineiro, com investimentos estimados em 1,5 bilhão de reais. A produção de cana estará lado a lado com a fábrica de plásticos. O pólo deve começar a operar no ano que vem produzindo etanol e, a partir de 2011, fabricando 350 000 toneladas de polietileno. As parcerias estratégicas da Santelisa Vale são uma reação à mudança da indústria da cana. “O foco do setor sucroalcooleiro está se modificando”, diz Sebastião Henrique Gomes, diretor administrativo da Santelisa Vale. “O que era um negócio de commodities está virando um negócio de energia renovável, em suas diversas formas.”

É na área de energia que as usinas vêm diversificando suas atividades com mais força e há mais tempo. Desde a década de 80, o bagaço da cana é usado para produzir energia elétrica. Esse aproveitamento do resto da produção tem permitido há algum tempo que as usinas sejam auto-suficientes em energia. Mas desde o apagão, em 2001, as usinas começaram a enxergar nessa produção interna de energia elétrica um novo negócio. Para produzir excedente, muitas delas investiram em caldeiras de alta pressão, mais eficientes na queima do bagaço, que custam mais de 30 milhões de reais. Hoje, também estão sendo desenvolvidas técnicas para aproveitar a palha da cana, que tem quantidade de energia igual à do bagaço. O resultado é a emergência de uma nova indústria, que já responde por 3% da matriz de eletricidade do país e pode chegar a 15%, o equivalente ao consumo de um país como a Holanda, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

A multiplicidade de produtos que começam a ser explorados com base na cana tem grandes implicações para a indústria sucroalcooleira do país. A primeira é a aceleração dos avanços tecnológicos no setor. Para desenvolver os novos produtos, são necessários conhecimentos de áreas diversas, como genética, biotecnologia, química e engenharia. Cada detalhe na nova cadeia da cana — das leveduras às turbinas — é desenvolvido por diferentes empresas, criando novas indústrias. As perspectivas de ganhos num setor que cresce de 10% a 15% ao ano formam um ambiente propício à inovação. A Allelyx, empresa de biotecnologia controlada pelo grupo Votorantim, tem pesquisas avançadas para desenvolver variedades transgênicas de cana mais produtivas ou capazes de gerar mais açúcar, por exemplo. Há anos fornecendo equipamentos para usinas, a Dedini se especializou em formas de ganhar mais eficiência na produção de etanol. Nesse processo, a empresa criou um novo equipamento, que capta o vapor gerado na fabricação de açúcar e álcool para produzir água. A Dedini também está investindo em tecnologia para a produção de álcool celulósico, que pode ser feito do bagaço de cana e de outras fontes de celulose. “O processo que fizemos de hidrólise rápida é muito mais ágil do que o que é testado em outros países”, diz Sérgio Leme dos Santos, vice-presidente executivo da Dedini. “Mas ainda precisamos torná-lo mais competitivo.”

Outro impacto no setor são as mudanças na área de gestão. Há alguns anos as usinas vêm se profissionalizando, deixando de ser apenas negócios de família. Com a crescente diversificação, novos profissionais estão sendo contratados para atuar nos diferentes setores, de energia, alcoolquímica e os tradicionais etanol e açúcar, que ficaram mais especializados. Faculdades começaram a oferecer cursos de MBA especialmente para o setor, como é o caso da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e da Faap, em São Paulo. “Com o leque de opções mais aberto, as usinas estão tendo de investir em bom planejamento estratégico para definir como será usada sua produção de açúcar e etanol”, diz Sandra Helena da Cruz, professora do departamento de agroindústria, alimentos e nutrição da Esalq. Em níveis mais baixos, a mecanização das lavouras (que será padrão em São Paulo até 2017) e o uso de equipamentos mais sofisticados exigem maior treinamento dos trabalhadores que ficam nos canaviais e nas usinas.

Feitos de açúcar

O novo ciclo da cana traz uma nova realidade para as usinas: a de se tornarem biorrefinarias. É difícil, porém, haver uma reprodução do que ocorre no setor petroquímico, pelo menos no curto prazo. Alguns dos novos produtos, como o diesel de açúcar, podem ser feitos dentro das usinas, pois a estrutura muda pouco. Mas outros, como os de alcoolquímica, devem ser feitos em parceria. “Os empresários podem diversificar um pouco seus investimentos, mas sem perder o foco em açúcar e etanol”, diz José Carlos Toledo, presidente da União dos Produtores de Bioenergia. Se não houver uma revolução nas usinas, certamente haverá no setor. A demanda por produtos que tenham menor impacto no aquecimento global e a necessidade de diminuir a dependência do petróleo fazem com que todos voltem os olhos para alternativas como o açúcar. Os produtos baseados no açúcar podem ser feitos de milho, beterraba e outros alimentos, mas a cana é o mais vantajoso: é a planta mais produtiva, tem o maior potencial energético e o menor custo. “O Brasil tem hoje a experiência mais competitiva do mundo em buscar alternativa ao petróleo”, diz Marcos Jank, presidente da Unica. Reinach, da Votorantim Novos Negócios, faz uma análise ainda mais otimista. “Da mesma forma que Taiwan virou um pólo para a fabricação de semicondutores, fazendo uma política de incentivo a investimentos, o Brasil pode ser o pólo dessa nova indústria ligada à cana”, diz. “As condições para a exploração estão aqui. É uma grande oportunidade.”

 Fonte: Revista EXAME 927

 

http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0927/negocios/m0167948.html

Além do petróleo

 

O Brasil já tem a liderança mundial em etanol. Mas ainda há muito a avançar em novas fontes de energia

 

Por Sérgio Teixeira Jr. 18/09/08

 

Os relatos sobre o fim do petróleo são muito exagerados. A frase é uma brincadeira com a célebre declaração do escritor americano Mark Twain, que teve seu obituário publicado fora de hora por um jornal de Nova York — mas o assunto é sério. O óleo do planeta não vai acabar tão cedo. O instituto de pesquisas Cambridge Energy Research Associates (Cera) vem publicando estimativas constantes sobre o estado das reservas petrolíferas no mundo. Num estudo divulgado em janeiro, o Cera concluiu que a produção diária atual, de cerca de 91 milhões de barris, pode crescer para 112 milhões em dez anos. “Essa análise nos dá mais confiança sobre a disponibilidade futura do petróleo”, disse na época Peter Jackson, autor do estudo. Essa sensação é especialmente verdadeira no Brasil. O país mal começou a dar-se conta do que as descobertas da região do pré-sal representam para o futuro. A ciência por trás das contas sobre a existência do petróleo, porém, é inexata. Não leva em conta fatores que estão muito longe das jazidas, mas são determinantes: os preços dos mercados internacionais, a crescente complexidade da exploração e produção, as preocupações ambientais e a instabilidade política das regiões que dominam as maiores reservas. Ninguém sabe quanto vai custar a retirada dos bilhões de barris que estão no fundo da costa brasileira. Uma estimativa do banco Goldman Sachs pôs o valor em 600 bilhões de dólares, mas o preço pode ser ainda mais alto. Também existem desafios tecnológicos importantes a vencer, sem mencionar o debate político. Os relatos sobre o fim do petróleo podem ser exagerados — mas isso não quer dizer que é hora de relaxar.

Pelo contrário. O melhor exemplo disso é a recente ruptura no fornecimento de gás natural da Bolívia. Os protestos contra o presidente Evo Morales cedo ou tarde serão sentidos pelas indústrias que contam com o gás natural que vem do nosso vizinho. Também podem ter impacto na produção de energia elétrica e na frota de carros movidos a gás. Ainda não se conhecem todas as implicações da crise na Bolívia. O país responde por metade do gás natural consumido no Brasil, mas uma interrupção pontual pode ser contornada com o desligamento de algumas usinas termelétricas e com a ativação de unidades movidas a diesel. A mensagem, entretanto, é clara: a busca por fontes de energia renovável ganha ainda mais importância no planejamento energético brasileiro. “Quanto mais diversificada a matriz energética de um país, melhor, especialmente quando existe risco de crises como esta”, diz Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Estudos de Infra-Estrutura. “Um dos grandes deveres deste e dos próximos governos será estabelecer formas de diversificar as fontes energéticas.”

Salto tecnológico

Oportunidades não faltam, como mostra uma das reportagens deste Estudo EXAME. O Brasil é um dos países de maior potencial eólico do mundo — mas tem um dos menores aproveitamentos. Os planos do governo de estímulo a essa indústria nunca saíram do papel. É verdade que 85% da eletricidade consumida no país vem de hidrelétricas, uma fonte limpa e igualmente renovável. Mas, em épocas de baixas nos reservatórios, os megawatts que faltam poderiam ser fornecidos pelo vento que sopra no Nordeste do país, em vez do gás importado do vizinho problemático. A construção dos cataventos gigantes tem um custo alto, sem dúvida. Mas o que os move tem custo zero e é abundante — duas garantias que termelétrica nenhuma pode oferecer. Mesmo com a incerteza em relação ao ambiente de investimentos em energia eólica por aqui, a Tecsis, uma empresa de Sorocaba, no interior de São Paulo, já conquistou um contrato de 1 bilhão de dólares com a GE para a venda de pás para os cataventos.

Esse é outro lado fundamental das energias renováveis: elas estão intimamente ligadas a novas tecnologias. Como demonstra o exemplo da Tecsis, existe uma grande oportunidade para o desenvolvimento de novas indústrias baseadas em capital intelectual e com grandes possibilidades de expansão internacional. Nunca na história houve tantos investimentos na busca por fontes renováveis de energia. No ano passado, mais de 148 bilhões de dólares foram investidos no setor, segundo a consultoria britânica New Energy Finance. Depois do boom da indústria dos computadores e da internet, não há mais dúvidas de que os investidores agora só têm olhos para o negócio das energias verdes. Com a transformação econômica dos países emergentes e com o enriquecimento de suas enormes populações, o consumo global vai dobrar de hoje até o meio deste século. Essa indústria movimenta atualmente 6 trilhões de dólares por ano, segundo uma conta feita por John Doerr, o capitalista de risco que investiu no Google e na Amazon quando as duas empresas estavam dando os primeiros passos e que agora voltou suas atenções para os novos negócios de energia.

Ainda há muito o que fazer para que o Brasil possa olhar além do petróleo. O setor que está mais avançado, sem dúvida, é o de etanol — e ele passa hoje por sua maior revolução desde a criação do programa Proálcool, nos anos 70. “A cana-de-açúcar plantada aqui oferece a melhor relação entre quantidade de energia e preço”, diz Fernando Reinach, da Votorantim Novos Negócios. Essa vantagem indiscutível que já se manifesta no etanol pode se ampliar para novos e improváveis derivados do açúcar e do bagaço, como os novíssimos diesel e gasolina produzidos com o uso de leveduras geneticamente modificadas, o bioplástico e a eletricidade. As usinas de álcool e açúcar farão parte de cadeias cada vez mais parecidas com a do petróleo: um insumo básico dará origem a uma variedade enorme de produtos. O Brasil já tem as terras, o clima e as plantações. A meta, agora, é desenvolver por aqui a tecnologia que dará o pontapé inicial a um novo — e potencialmente mais próspero — ciclo da cana-de-açúcar.

O vício do petroleo

Para chegar lá, porém, ainda há obstáculos importantes a superar. O petróleo é um vício difícil de abandonar. O sol é de graça, o vento também. Mas os equipamentos que permitem capturar a força da natureza custam caro. O desenvolvimento de uma indústria de energia limpa depende de inovação, persistência e também determinação política. Talvez não haja um exemplo mais ilustrativo dessa confluência de fatores do que a Alemanha. Graças a uma agressiva política de incentivos — pagos pelos consumidores, não pelo governo —, 15% da eletricidade consumida no país vem de fontes limpas. Mais de 250 000 alemães trabalham no setor. De acordo com uma estimativa, esse número vai chegar a 400 000 em 2020, o equivalente a metade do número de trabalhadores da tradicional indústria automotiva do país. É provável que, até lá, os carros da Volkswagen e da BMW sejam diferentes do que entendemos hoje por uma montadora. Como mostra a reportagem final deste Estudo EXAME, a indústria automobilística está passando por uma das maiores transformações de sua história. O carro elétrico já deixou as pranchetas e vai passar a ser visto cada vez mais nas ruas, inclusive as brasileiras. O petróleo não vai acabar — mas seu uso vai ser muito diferente no futuro.

Fonte:

Revista EXAME 927

http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0927/negocios/m0167944.html

 

 

 

Quero ser neutro

Ae Galera,

uma reportagem veiculada na Revista EXAME nº 927 de 24/09/08, boa leitura.Quero ser neutro

Como um grupo (ainda restrito) de empresas brasileiras está assumindo o desafio de calcular e compensar suas emissões de gases de efeito estufa

 Por Ana Luiza Herzog EXAME 18.09.2008

Em março de 2007, a fabricante de cosméticos Natura lançou um projeto piloto em Recife que mudou a rotina de 15% das consultoras que atuam nessa cidade. A companhia pediu que, a partir daquele momento, cada vez que uma delas fizesse uma entrega a um cliente, aproveitasse a oportunidade para recolher embalagens usadas de produtos da marca. O destino de todo o lixo seria a reciclagem — no ano passado foram recolhidas 90 toneladas. Por enquanto, a iniciativa, que também abrange algumas regiões da capital paulista, é apenas um teste para um projeto mais arrojado, um abrangente programa de logística reversa para tentar reduzir as emissões de gases de efeito estufa da companhia. Se não fossem coletadas, as embalagens poderiam acabar se decompondo em algum aterro sanitário e se transformariam em gases que causam o aquecimento global. “O objetivo é que esse programa cresça e faça parte do cálculo das reduções de emissões da empresa num futuro próximo”, afirma Daniel Gonzaga, diretor de pesquisa e tecnologia da Natura.

Em tempos em que se discute exaustivamente o aquecimento global, encontrar maneiras de reduzir as emissões de gases de efeito estufa tornou-se uma obsessão comum a muitas empresas. Nos países europeus, esse empenho deve-se em grande medida ao fato de muitos deles serem signatários do Protocolo de Kyoto, que estabelece metas para a redução das emissões para as nações desenvolvidas. No Brasil, que pelo protocolo está isento da responsabilidade de reduzir a emissão de gases, as iniciativas são voluntárias (normalmente movidas por ideologia ou pelo anseio de polir a imagem). Por causa disso, o que será incluído no balanço de emissões de cada empresa é totalmente arbitrário — decisão que cada companhia pode tomar sozinha ou com a assessoria de uma das poucas consultorias especializadas existentes no país. Nesse levantamento podem ser levados em consideração itens tão diversos quanto o consumo de energias não-renováveis (como o carvão) numa fábrica ou o combustível gasto em viagens feitas por executivos. O mais comum é que as empresas inicialmente façam inventários restritos — por exemplo, as emissões geradas apenas na sede da companhia — e, aos poucos, aumentem o escopo do cálculo — incluindo o conjunto de operações.

O Bradesco, por exemplo, considerou apenas as emissões provocadas pela sede em seu primeiro inventário, em 2006 — do consumo de gás no refeitório ao gasto de combustível da frota de automóveis. No ano seguinte, o banco decidiu incluir no levantamento suas 3 000 agências espalhadas pelo país, além das outras três empresas do grupo, a Finasa, a Bradesco Seguros e a Scopus. “Fizemos o primeiro exercício e depois percebemos que poderíamos dar um passo maior”, diz Jean Philippe Leroy, diretor departamental de relações com o mercado do Bradesco. Em junho, a instituição obteve a certificação ISO 14 064, uma garantia de que o banco tem processos precisos para quantificar e monitorar suas emissões. O selo também exige que o banco as reduza — neste ano, a meta de corte é 3,5%.

Para alcançar o objetivo, Leroy conta com a ajuda de um time de 16 funcionários de diferentes áreas do grupo, cada um responsável por encontrar oportunidades de melhoria para uma fonte de emissão (tais como viagens de avião, consumo de energia etc.).

Se reduzir a própria emissão é tarefa difícil, incluir os fornecedores nesse processo é um desafio ainda mais complexo. Mesmo assim, no ano passado a Natura anunciou um plano para neutralizar as emissões em toda a sua cadeia produtiva. Com iniciativas como incentivo ao uso de refil e substituição de matérias-primas, a companhia conseguiu diminuir suas emissões em 7%. Neste ano, a redução deverá contar com a ajuda de uma mudança recente que, de início, soou como um contra-senso: a volta do uso do papel cuchê, em vez do reciclado, nos 2 milhões de catálogos de produtos distribuídos às consultoras a cada 21 dias. A adoção do cuchê, que vem de florestas plantadas e tem o selo verde FSC, gerou uma redução de cerca de 60 páginas no livreto — já que sua qualidade permite a impressão das imagens dos produtos em tamanho menor. Com isso, a empresa não só economizará 3 500 toneladas de papel por ano como deixará de jogar na atmosfera 4 500 toneladas de carbono.

Atrás da soma zero

Os passos que uma empresa deve trilhar para neutralizar as próprias emissões de gases causadores do efeito estufa

1 – Cálculo

No Brasil, ao contrário do que acontece na Europa, as empresas não são obrigadas a reduzir emissões. Assim, cabe a cada uma defi nir o que quer compensar — do consumo de energia de uma fábrica às emissões de frotas de veículos. O Bradesco, por exemplo, considerou apenas as emissões da sede e da frota de veículos em seu primeiro inventário, em 2006. Há cerca de 15 consultorias especializadas nesse cálculo no país.

2 – Validação

Feitas as contas, o ideal é que a empresa contrate uma auditoria. No Brasil, esse trabalho pode ser feito por diversas certifi cadoras, como a brasileira Vanzolini e a européia Det Norske Veritas (DNV).

3 – Redução

Uma vez ciente do volume de carbono que gera, a empresa deve traçar um plano para reduzir as emissões. Aqui entram as ações de ecoefi ciência. A Natura, por exemplo, alterou a fórmula de seus produtos para que eles usem menos substâncias de origem fóssil. Já o Bradesco trocou, de 2006 para 2007, toda a sua frota de veículos. Hoje, com exceção dos carros blindados, todos rodam movidos a etanol.

4 – Compensação

Como nenhuma empresa consegue zerar suas emissões, a saída é compensar o que não pôde ser eliminado. Para isso, vale recuperar fl orestas degradadas, fi nanciar projetos de energia limpa ou comprar créditos de carbono. A Natura, por exemplo, fi nancia a troca de combustível de origem fóssil por biomassa em uma empresa têxtil. O Bradesco plantou, no ano passado, 38 000 árvores para compensar as emissões de sua sede em 2006.

Mesmo com todos esses esforços, os executivos da Natura sabem que jamais será possível eliminar totalmente suas emissões. A meta da companhia é reduzilas em 33% até 2011 — e compensar os 67% restantes por meio de financiamento de projetos de reflorestamento e de produção de energia limpa. Este é um caminho comum a todas as empresas que pretendem ser “carbono neutro”: reduzir ao máximo as próprias emissões e, no que for impossível, encontrar projetos que valham compensações. No final de 2007, a Natura fez um edital para escolher projetos verdes que precisassem de investimento. Um dos vencedores foi a AMC Têxtil, que receberá dinheiro para adaptar sua operação ao uso de biomassa no lugar do atual combustível fóssil (o valor do projeto não é revelado). Para especialistas, é importante que, antes de embarcar em programas de compensação, as empresas façam a lição de casa — a exemplo do que aconteceu com a Natura e o Bradesco. “Muitas empresas entraram de maneira cega na onda do plantio de árvores sem antes se preocupar em diminuir suas próprias emissões”, diz o consultor Giovanni Barontini, coordenador da filial brasileira do Carbon Disclosure Project, iniciativa internacional criada por investidores institucionais para incentivar as empresas a divulgar informações sobre suas políticas relacionadas às mudanças climáticas. “Pular essa etapa é mais fácil para as empresas, mas não ajuda a resolver, de fato, os problemas ambientais.”

Fonte: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0927/gestaoepessoas/m0167878.html