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Espuma de sapo transforma energia solar em biocombustíveis e alimentos

Redação do Site Inovação Tecnológica – 22/03/2010

”]Cientistas da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, inspiraram-se em um pequeno sapo existente nas Américas Central e Sul, para criar uma espuma que capta energia, pode produzir biocombustíveis ou alimentos, e ainda remove o excesso de dióxido de carbono do ar.

Fotossíntese artificial

A pesquisa é mais uma em uma lista cada vez maior do campo chamado fotossíntese artificial, na qual os cientistas estão tentando imitar a forma como as plantas captam a luz solar para produzir sua própria energia.

Na fotossíntese natural, as plantas absorvem a energia do Sol e o dióxido de carbono da atmosfera, e os convertem em oxigênio e em açúcares. O oxigênio é liberado para o ar e os açúcares são usados como fonte de energia que mantém a planta viva.

Os cientistas, por sua vez, estão encontrando formas de aproveitar a energia do sol e o carbono do ar para criar novas formas de biocombustíveis, que poderão alimentar nossos automóveis.

Espuma de sapo

O trabalho resultou na fabricação de um material fotossintético artificial que utiliza enzimas de plantas, bactérias e fungos, tudo acomodado no interior de um invólucro de espuma. Exposta à luz do Sol e ao carbono da atmosfera, a espuma gera açúcares.

A espuma é uma escolha natural: além de concentrar os reagentes, o material poroso permite uma boa penetração do ar e da luz solar.

O projeto da espuma baseou-se nos ninhos de uma pequena rãzinha tropical (Physalaemus pustulosus), que cria espumas para seus girinos que apresentam uma durabilidade incrivelmente longa. Uma proteína produzida pela rã, a Ranaspumina-2, foi utilizada como base da espuma artificial.

Melhor do que plantas e algas

“A vantagem do nosso sistema, em comparação com as plantas e as algas, é que toda a energia solar captada é convertida em açúcares livres, enquanto esses organismos precisam desviar uma grande quantidade de energia para outras funções, para manter sua vida e se reproduzir,” diz o Dr. David Wendell, que coordenou a pesquisa, referindo-se à energia líquida disponível que pode ser aproveitada a partir das plantas já crescidas para sua posterior transformação em biocombustíveis.

“Nossa espuma também não precisa do solo, não afetando a produção de alimentos, e pode ser utilizada em ambientes com alta concentração de dióxido de carbono, como nas chaminés das centrais elétricas a carvão,” diz ele, ressaltando que dióxido de carbono em excesso paralisa a fotossíntese natural.

Biocombustível ou alimento

O produto da “espuma fotossintética”, os açúcares, pode ser utilizado como insumo para uma grande variedade de produtos, incluindo o etanol e outros biocombustíveis. Mas nada impede que o material seja utilizado também para produzir alimentos.

“Esta nova tecnologia cria uma forma econômica de utilizar a fisiologia dos sistemas vivos, criando uma nova geração de materiais funcionais que incorporam intrinsecamente processos de vida em sua estrutura”, diz Dean Montemagno, coautor da pesquisa, acrescentando que o novo processo iguala ou supera outras técnicas de produção biossolar.

Larga escala

O próximo passo da equipe será tornar a tecnologia adequada para aplicações em grande escala, como a captura de carbono nas usinas a carvão.

“Isto envolve o desenvolvimento de uma estratégia para extrair a cobertura de lipídios das algas (usada para o biodiesel) e os conteúdos citoplasmáticos, e reutilizar essas proteínas na espuma”, afirma Wendell. “Estamos também estudando outras moléculas de carbono mais curtas que podemos produzir alterando o coquetel de enzimas na espuma.”

Bibliografia:

Artificial Photosynthesis in Ranaspumin-2 Based Foam
David Wendell, Jacob Todd, Dean Carlo Montemagno
Nano Letters
March 5, 2010
Vol.: Article ASAP
DOI: 10.1021/nl100550k

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Borracha que gera energia poderá alimentar marcapassos e celulares

Muito interessante essa nova e limpa forma de produzir energia. Tomara que não demore a se tornar comercial….

Redação do Site Inovação Tecnológica – 04/02/2010

”]

Engenheiros da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, desenvolveram folhas de borracha flexíveis capazes de gerar eletricidade a partir do movimento.

As folhas flexíveis poderão ser utilizadas na fabricação de acessórios, roupas e sapatos, aproveitando os movimentos naturais do corpo, como a respiração e o caminhar, para alimentar marcapassos, telefones celulares e outros equipamentos portáteis.

Piezoeletricidade

O material, composto por nanofitas de cerâmica incorporadas em folhas de borracha de silicone, gera eletricidade quando flexionado – um fenômeno conhecido como piezoeletricidade.

A ideia não é nova e já existem vários protótipos de nanogeradores que exploram a energia biomecânica e de vários tipos de músculos artificiais baseados no mesmo princípio.

Recentemente, foi vencido um grande desafio para o aproveitamento prático das vibrações de frequência variável da natureza na geração de eletricidade – veja Energia gerada a partir de movimentos da natureza rivaliza com baterias.

Mas esta é a primeira vez que os pesquisadores conseguem combinar com sucesso as nanofitas de titanato-zirconato de chumbo (PZT), um material cerâmico que é piezoelétrico, com o silicone, que é flexível, barato e biocompatível, já sendo utilizado em implantes e outros dispositivos médicos.

Piezo-borracha

Dentre os vários tipos de materiais piezoelétricos, o PZT é o mais eficiente que se conhece até hoje, sendo capaz de converter 80% da energia mecânica aplicada a ele em energia elétrica.

“O PZT é 100 vezes mais eficiente do que o quartzo, outro material piezoelétrico,” explica Michael McAlpine, que liderou o projeto. “Você não gera tanta energia assim ao caminhar ou respirar, então você vai querer aproveitá-la da forma mais eficiente possível.”

Os pesquisadores primeiro fabricaram as nanofitas de PZT – tiras tão estreitas que 100 delas colocadas lado a lado cabem em um espaço de um milímetro. Em um processo separado, eles incorporaram essas fitas em folhas de borracha de silicone, criando o que eles chamaram de “chips de piezo-borracha”.

Tênis que geram energia

”]O uso do silicone faz os cientistas acreditarem que será muito mais fácil utilizar a sua piezo-borracha em dispositivos práticos, inclusive implantados no corpo humano.

“Os novos dispositivos geradores de eletricidade poderiam ser implantados no corpo para alimentar dispositivos médicos perpetuamente, e o corpo não os rejeitará,” disse McAlpine.

Mas esta é só uma previsão, e o uso prático do novo material terá que ser antes avaliado pelas autoridades de saúde, devido principalmente à presença da cerâmica PZT. Nenhuma avaliação desse tipo foi feita nesta pesquisa.

Mas o uso externo do material não impõe tantas restrições. Tênis e sapatos feitos com a borracha piezoelétrica, por exemplo, poderão aproveitar os movimentos de uma caminhada ou de uma corrida para recarregar o celular ou alimentar o tocador de MP3. O mesmo poderia ser feito com coletes que utilizem o movimento do tórax durante a respiração.

Atuador para robôs

Além de gerar eletricidade quando é flexionado, o oposto também é verdadeiro: a piezo-borracha flexiona quando uma corrente elétrica é aplicada sobre ela.

Isso abre possibilidades para outros tipos de aplicações, como seu o uso em equipamentos médicos de microcirurgia, afirma McAlpine, sempre de olho na área médica.

Essa ação mecânica faz a piezo-borracha funcionar como um atuador, uma espécie de músculo artificial, de grande interesse na área de robótica, por permitir a construção de robôs mais leves, menores e com menor consumo de energia.

“A beleza [deste material] é que é tudo escalável,” afirmou Yi Qi, coautor da pesquisa. “Conforme avançarmos na fabricação dessas borrachas, seremos capazes de fazer folhas maiores e maiores, capazes de gerar mais e mais energia.”

Bibliografia:

Piezoelectric Ribbons Printed onto Rubber for Flexible Energy Conversion
Yi Qi, Noah T. Jafferis, Kenneth Lyons Jr., Christine M. Lee, Habib Ahmad, Michael C. McAlpine
Nano Letters

 January 26, 2010
Vol.: Articles ASAP
DOI: 10.1021/nl903377u

Resíduos agrícolas viram aquecimento na Dinamarca

27/01/2010 – Autor: Paula Scheidt – Fonte: CarbonoBrasil

Rejeitos da criação de animais e restos das colheitas viram matéria-prima para a produção de energia usada na calefação de edifícios, criando ambientes agradáveis para enfrentar o rigoroso inverno do norte da Europa

Calor e luz em abundância são coisas raras no inverno dinamarquês.  Nesta época do ano, as pessoas andam apressadas pelas ruas ou aceleram a pedalada para chegar logo ao seu destino. Pois, se na rua as temperaturas negativas exigem casacos pesados, chapéus e luvas; ao entrar nas casas e edifícios é preciso se livrar rapidamente de todo estas roupas.

Para criar ambientes tão confortáveis, grandes volumes de matéria-prima precisam ser queimadas para gerar calor capaz de aquecer os locais fechados por onde circulam os mais de 5,5 milhões de habitantes do país.

A boa notícia é que 41,1% da calefação produzida na Dinamarca vêm da queima da biomassa, incluindo aí lixo, rejeitos do campo, do setor madeireiro e da criação de animais.

O país possui 665 usinas de co-geração de energia (eletricidade e calor) e 230 usinas que produzem apenas aquecimento, que é distribuído com o uso de água em um sistema de tubulações.

A CarbonoBrasil visitou uma delas em uma pequena vila rural há 80km de Copenhague, onde um grupo de 21 agricultores decidiu formar uma cooperativa para produzir calor para suas residências usando o ‘lixo’ resultante do processo de criação de suínos.

Com a idéia na cabeça, eles fizeram um empréstimo de 60 milhões de coroas dinamarquesas, algo como 2,1 milhões de euros, em 1994 e montaram a usina de biogás próxima as suas propriedades.

Um caminhão coleta os resíduos da criação de animais nas fazendas e os leva até a unidade de biogás. Ali, das cerca de 220 toneladas de dejetos que chegam diariamente são obtidos cerca de 13 mil a 15 mil metros cúbicos de gás.

Deste modo, além de terem achado uma solução de descarte para o resíduo da sua produção, que é altamente poluente para os leitos dos rios e solo, os agricultores mantém as casas de 465 famílias das cidades de Dalmose e Flakkebjerg totalmente aquecidas no inverno. Isto sem contar que, no processo de produção do biogás, eles também obtêm adubo com alta riqueza de nutrientes para suas lavouras.

Dos campos para as caldeiras

Não muito longe dali, a cerca de 40 Km de Copenhague, na cidade de Borup, conhecemos outra iniciativa rural com duplo benefícios.

Um grupo de 29 fazendeiros se juntou em 1984 para construir uma usina de produção de energia para calefação com base na queima do feno, resíduo resultante da colheita na agricultura. A usina recebe hoje cerca de 7,6 mil toneladas de feno por ano e cada agricultor recebe cerca de 0,7 coroas por quilo de feno entregue.

O engenheiro Soren Mortensen, da empresa que construiu a usina, Andritz Sprout, explica que a soma paga depende da qualidade do feno. “Quanto mais seco, melhor o preço. No inverno, por exemplo, o material não pode ter mais de 20% de umidade”, diz.

 A usina produz, em média, 7,5 MW por ano, que é usado para fornecer calefação a 1,7 mil casas.

Mortensen explica que os consumidores pagam a metade do valor que pagariam pelo sistema convencional a gás ou carvão por exemplo. Segundo ele, a construção da usina custou 3 milhões de euros e, para mantê-la, são gasto apenas 3 mil euros anuais em manutenção.

Além disso, assim como na usina de biogás, nada se perde por aqui. As cinzas resultantes da queima do feno são mais uma vez reutilizadas no campo, também como fertilizante.

Fonte: http://www.carbonobrasil.com/#reportagens_carbonobrasil/noticia=724428

Em busca do Google verde

Por que investidores como o indiano Vinod Khosla consideram o mercado de energias renováveis o mais promissor do século 21 – e como eles pretendem ganhar bilhões com isso

 

O indiano Vinod Khosla: Meio bilhão de dólares do próprio bolso para empresas verdes

Por Tiago Lethbridge, de Nova York | 21.01.2010 | 10h58

O indiano Vinod Khosla não acumulou um patrimônio superior a 1 bilhão de dólares fazendo apostas erradas. Nascido em Nova Délhi há 54 anos, Khosla se tornou um dos mais celebrados investidores do Vale do Silício, um especialista em descobrir, dentre milhares de empresas em gestação, aquelas que serão as gigantes da década seguinte. Ele foi escolhido pela revista Fortune o mais bem-sucedido investidor de risco da história. Nos últimos anos, Khosla partiu para aquela que é a sua mais ousada empreitada – decidiu apostar, e apostar pesado, em empresas verdes. Estima-se que Khosla tenha tirado mais de meio bilhão de dólares do próprio bolso para financiar empreendedores e suas ideias aparentemente malucas para diminuir o consumo de energia ou encontrar substitutos limpos para o petróleo. A lista é enorme: são dezenas de empresas. Não se deve, no entanto, confundir o investidor indiano com um bilionário ambientalista excêntrico que joga dinheiro fora. Pelo contrário. A ideia de Khosla é multiplicar a própria fortuna no processo. Como ele costuma dizer, a solução de problemas gigantescos requer “uma pitada de ganância”. E, para Khosla, o setor de energias renováveis é o lugar certo para quem quer ganhar dinheiro no século 21. “Essas empresas valerão centenas de bilhões de dólares num futuro muito próximo”, disse Khosla a EXAME.

Nos últimos dois anos, dezenas de investidores e centenas de empreendedores se juntaram a Khosla na busca pelo Google da energia verde – a empresa que transformará o mundo da energia como o Google mudou a internet e a Microsoft, a computação pessoal. Em 2009, a energia limpa foi o setor que mais atraiu dinheiro dos fundos de venture capital americanos, aqueles que financiam empresas em seus estágios iniciais de desenvolvimento. Por trás desse fenômeno estão os mesmos investidores que catapultaram as maiores empresas de tecnologia do mundo. Entre eles, por exemplo, está John Doerr, do fundo Kleiner Perkins, conhecido por ter feito apostas certeiras em empresas como Google e Amazon. Nos últimos dois anos, fundos como os de Khosla e Doerr investiram mais de 14 bilhões de dólares em empresas de energia limpa – e, após uma queda acentuada no primeiro trimestre de 2009, os números voltaram a crescer a partir da segunda metade do ano. Foram mais de 1 000 negócios no total. Até mesmo Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, decidiu separar 230 milhões de dólares para fazer sua aposta na chinesa BYD, fabricante de carros elétricos. “As oportunidades são enormes”, afirma Dallas Kachan, diretor da empresa de pesquisas Cleantech Group. “Há cinco anos, a energia limpa atraía apenas 3% dos investimentos de fundos de venture capital. Hoje, são 25%.”

Nenhum desses investidores, no entanto, tem a agressividade de Vinod Khosla. Seu envolvimento com o setor começou no início da década, quando ainda era sócio de Doerr no Kleiner Perkins. Surgiu, então, um problema. Khosla queria investir em empresas com tecnologias incipientes, mas revolucionárias. E era impossível fazer isso num fundo tradicional, que usa dinheiro dos outros. Em 2004, ele deixou o Kleiner e fundou a Khosla Ventures. Com o próprio dinheiro, claro, ele poderia fazer o que bem entendesse. Khosla começou, então, a investir em algumas ideias consideradas – por ele mesmo – “loucas, mas que podem transformar mercados inteiros se derem certo”. Entre elas, por exemplo, está uma tecnologia para a fabricação de cimento que, em vez de emitir, sequestra carbono. Segundo Khosla, a Calera, fundada por um cientista de Stanford, tem 10% de chance de dar um retorno de 100 vezes para o investimento, e 90% de chance de quebrar. “Aceitamos esse risco”, diz Khosla. Hoje, seu fundo tem investimentos relevantes em 35 empresas do setor. Em setembro do ano passado, quando a energia limpa já estava na moda, levantou mais de 1 bilhão de dólares com investidores para criar dois fundos dedicados a comprar participações em empresas de energia limpa. O maior deles procurará projetos mais maduros. Com o outro, estimado em 300 milhões de dólares, a meta é continuar financiando ideias que ninguém tem coragem de apoiar.

Por que esse setor vem atraindo tanto dinheiro? O que motiva Khosla e investidores como ele é a certeza de que só a tecnologia pode combater a escassez de recursos naturais num século em que a população mundial pode chegar a 9 bilhões de pessoas. “A demanda por energia e recursos naturais vai aumentar muito, particularmente nos países emergentes”, diz Joe Muscat, diretor da consultoria Ernst&Young. “E novas tecnologias serão necessárias para atender essa explosão na demanda.” Claro, o aumento da preocupação dos governos com o aquecimento global também está impulsionando novos investimentos privados. Nos Estados Unidos, governos estaduais estabeleceram metas para a produção de energias renováveis, e o governo de Barack Obama fez empréstimos vultosos a algumas das empresas mais conhecidas do setor. A montadora de carros elétricos Tesla, por exemplo, obteve um financiamento de quase meio bilhão de dólares para produzir um sedã na Califórnia. O mesmo aconteceu com fabricantes de baterias, por exemplo.

A busca pelo Google verde é global, e os Estados Unidos não saíram na frente. Na primeira onda, amplamente impulsionada por incentivos estatais, países como Alemanha e, mais recentemente, a China, se destacaram. Das cinco maiores fabricantes de turbinas de energia eólica, apenas uma é americana – a General Electric. O país também é uma força menor em setores como energia solar e produção de baterias. Mas a esperança dos investidores é que as grandes rupturas tecnológicas – que, como preza Khosla, podem transformar setores inteiros sem depender da muleta estatal – surjam nos Estados Unidos. Os centros de pesquisa de universidades americanas como o Massachusets Institute of Technology (MIT) ou Stanford são o maior nascedouro de empresas de energia limpa de alta tecnologia. A Amyris, considerada uma das mais promissoras fabricantes de biocombustíveis do mundo, nasceu no laboratório de microbiologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Um grupo de estudantes de Ph.D. desenvolveu uma bactéria que produzia uma droga para a malária. “Em 2006, percebemos que a mesma tecnologia poderia ser usada para produzir combustíveis”, diz Jack Newman, um dos fundadores da Amyris, que já recebeu mais de 150 milhões de dólares de investidores como Khosla e Doerr. Os micróbios da Amyris usam o açúcar para produzir um biocombustível que, segundo a empresa, é muito semelhante ao petróleo. A empresa já fez parcerias com as principais usinas de açúcar e álcool brasileiras, como São Martinho e Cosan. “Vamos começar a vender diesel em 2011”, diz Newman.

A substituição do petróleo por biocombustíveis mais baratos e menos poluentes é considerada a empreitada com mais chances de gerar retornos bilionários. Não chega a surpreender que as grandes empresas petrolíferas estejam entre os principais investidores nesse segmento. Fundada por pesquisadores de Harvard e Berkeley, a californiana LS9 produz um biodiesel 85% menos poluente que o diesel comum e recebeu investimentos da americana Chevron em 2009. A anglo- holandesa Shell tem acordos com cerca de 70 empresas de energia alternativa. Finalmente, a americana Exxon anunciou no ano passado um dos maiores investimentos da história da energia limpa. A empresa vai investir até 600 milhões de dólares na Synthetic Genomics, empresa do cientista americano Craig Venter, que desenvolve uma tecnologia de produção de combustíveis de algas. Venter, considerado um dos homens mais influentes do mundo pela revista Time, ganhou fama mundial em sua corrida para decodificar o genoma humano. E acha que o dono do Google verde será ele mesmo. Sua pesquisa é, realmente, fascinante. As algas desenvolvidas por seu time de cientistas produzem combustíveis consumindo dióxido de carbono e luz solar. Segundo Venter, a tecnologia será viável comercialmente dentro de cinco a dez anos. O objetivo da Synthetic Genomics é “substituir a indústria petroquímica”.

Por que esse setor vem atraindo tanto dinheiro? O que motiva Khosla e investidores como ele é a certeza de que só a tecnologia pode combater a escassez de recursos naturais num século em que a população mundial pode chegar a 9 bilhões de pessoas. “A demanda por energia e recursos naturais vai aumentar muito, particularmente nos países emergentes”, diz Joe Muscat, diretor da consultoria Ernst&Young. “E novas tecnologias serão necessárias para atender essa explosão na demanda.” Claro, o aumento da preocupação dos governos com o aquecimento global também está impulsionando novos investimentos privados. Nos Estados Unidos, governos estaduais estabeleceram metas para a produção de energias renováveis, e o governo de Barack Obama fez empréstimos vultosos a algumas das empresas mais conhecidas do setor. A montadora de carros elétricos Tesla, por exemplo, obteve um financiamento de quase meio bilhão de dólares para produzir um sedã na Califórnia. O mesmo aconteceu com fabricantes de baterias, por exemplo.

A busca pelo Google verde é global, e os Estados Unidos não saíram na frente. Na primeira onda, amplamente impulsionada por incentivos estatais, países como Alemanha e, mais recentemente, a China, se destacaram. Das cinco maiores fabricantes de turbinas de energia eólica, apenas uma é americana – a General Electric. O país também é uma força menor em setores como energia solar e produção de baterias. Mas a esperança dos investidores é que as grandes rupturas tecnológicas – que, como preza Khosla, podem transformar setores inteiros sem depender da muleta estatal – surjam nos Estados Unidos. Os centros de pesquisa de universidades americanas como o Massachusets Institute of Technology (MIT) ou Stanford são o maior nascedouro de empresas de energia limpa de alta tecnologia. A Amyris, considerada uma das mais promissoras fabricantes de biocombustíveis do mundo, nasceu no laboratório de microbiologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Um grupo de estudantes de Ph.D. desenvolveu uma bactéria que produzia uma droga para a malária. “Em 2006, percebemos que a mesma tecnologia poderia ser usada para produzir combustíveis”, diz Jack Newman, um dos fundadores da Amyris, que já recebeu mais de 150 milhões de dólares de investidores como Khosla e Doerr. Os micróbios da Amyris usam o açúcar para produzir um biocombustível que, segundo a empresa, é muito semelhante ao petróleo. A empresa já fez parcerias com as principais usinas de açúcar e álcool brasileiras, como São Martinho e Cosan. “Vamos começar a vender diesel em 2011”, diz Newman.

A substituição do petróleo por biocombustíveis mais baratos e menos poluentes é considerada a empreitada com mais chances de gerar retornos bilionários. Não chega a surpreender que as grandes empresas petrolíferas estejam entre os principais investidores nesse segmento. Fundada por pesquisadores de Harvard e Berkeley, a californiana LS9 produz um biodiesel 85% menos poluente que o diesel comum e recebeu investimentos da americana Chevron em 2009. A anglo- holandesa Shell tem acordos com cerca de 70 empresas de energia alternativa. Finalmente, a americana Exxon anunciou no ano passado um dos maiores investimentos da história da energia limpa. A empresa vai investir até 600 milhões de dólares na Synthetic Genomics, empresa do cientista americano Craig Venter, que desenvolve uma tecnologia de produção de combustíveis de algas. Venter, considerado um dos homens mais influentes do mundo pela revista Time, ganhou fama mundial em sua corrida para decodificar o genoma humano. E acha que o dono do Google verde será ele mesmo. Sua pesquisa é, realmente, fascinante. As algas desenvolvidas por seu time de cientistas produzem combustíveis consumindo dióxido de carbono e luz solar. Segundo Venter, a tecnologia será viável comercialmente dentro de cinco a dez anos. O objetivo da Synthetic Genomics é “substituir a indústria petroquímica”.

Do genoma à gasolina

O cientista Craig Venter quer substituir o petróleo por um combustível produzido por algas geneticamente modificadas

O americano Craig Venter, cientista- celebridade que liderou a decodificação do genoma humano no fim dos anos 90, tornou-se um dos mais destacados empresários da energia limpa. Ele pretende usar algas geneticamente modificadas para produzir um combustível que poderá entrar diretamente nas refinarias existentes hoje. Parece coisa de maluco, mas a petrolífera americana Exxon anunciou no ano passado um investimento de 600 milhões de dólares na empresa de Venter, a Synthetic Genomics. Venter falou a EXAME sobre sua nova meta – substituir a indústria petroquímica. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Como o seu trabalho anterior com o genoma o levou aos biocombustíveis? Há quatro anos, eu me perguntei onde estavam os maiores problemas do planeta, e como a biologia poderia ajudar a resolvê-los. Não demorei a chegar no meio ambiente. E, com as ferramentas de genômica que já conhecíamos, a melhor aplicação parecia ser o desenvolvimento de biocombustíveis para diminuir nossa dependência de petróleo.

Como é possível fazer um combustível equivalente ao petróleo usando algas? Tudo é baseado no trabalho que desenvolvemos ao aprender a escrever o código genético. O avanço com algas foi significativo. Estamos mudando o código genético das algas para que seu metabolismo produza combustíveis. E o que é melhor: elas usam carbono e luz solar para isso.

A Exxon vai investir 600 milhões de dólares nesse projeto. Quais são os próximos passos? Precisamos aumentar a eficiência das algas, sua produtividade, encontrar algas que resistam a baixas temperaturas e pouca luz. Será muito difícil. Ninguém fez nada parecido antes. É preciso, finalmente, encontrar um combustível economicamente viável. Mas produziremos um combustível que pode entrar numa refinaria existente hoje e ser transformado num produto idêntico à gasolina, ao diesel e ao combustível de aviação atuais.

Quanto tempo levará até que isso aconteça? Faltam entre cinco e dez anos. Para tornar esse combustível viável comercialmente, precisamos de escala. É necessário produzir bilhões de litros por ano.

Combustíveis feitos de algas são uma resposta melhor ao problema do que o etanol, por exemplo? O etanol de cana de açúcar é excelente, e o Brasil fez um trabalho fantástico. Mas o etanol não é um bom substituto do petróleo. Outros combustíveis feitos do açúcar poderão usar as mesmas refinarias existentes hoje, o que não acontece com o etanol. Essas são opções importantes também. A verdade é que vamos precisar de todas as soluções possíveis.

O senhor afirmou que pretende substituir a indústria petroquímica. E não estava brincando. Esse, aliás, tem de ser o objetivo da sociedade, não apenas o meu. Claro que isso vai levar 30 ou 40 anos, sendo bastante realista.

O que é mais desafiador, o genoma ou encontrar um substituto para o petróleo? Bem, eu achava o sequenciamento do genoma um enorme desafio à época. Mas é menor do que trabalhar para ver o mundo livre do petróleo. Todos nós crescemos dependentes de combustíveis fósseis. Será um desafio enorme encontrar uma solução economicamente viável, e na escala necessária. A ciência e a engenharia nunca enfrentaram um desafio dessas dimensões. Mas é um objetivo viável.

Fonte: http://portalexame.abril.com.br//revista/exame/edicoes/0960/especiais/busca-google-verde-527747.html?page=1

Folha semi-artificial imita fotossíntese e produz hidrogênio limpo

Redação do Site Inovação Tecnológica – 14/01/2010

Fotossíntese artificial Fazer fotossíntese artificial é o grande sonho acalentado por todos os cientistas que lidam na área de energia.

Quando o homem conseguir replicar a “mágica” das plantas, que transformam a luz do Sol em energia, estará resolvido todo o dilema energético e ambiental da nossa civilização.

Apesar dos muitos avanços, o objetivo continua elusivo.

Folha semi-artificial

Contudo, em mais um passo que mostra que fazer fotossíntese artificial pode ser factível a longo prazo, cientistas chineses mudaram completamente a abordagem até agora utilizada para imitar a natureza e criaram uma folha artificial da maneira mais prosaica possível: usando uma folha de verdade como molde.

Dada a complexidade inerente a qualquer ser vivo, os cientistas vinham tentando compreender as moléculas envolvidas e reproduzir sinteticamente as reações químicas básicas que ocorrem no interior das folhas quando elas usam os fótons da luz solar para quebrar as moléculas de água e gerar íons de hidrogênio.

O Dr. Qixin Guo e seus colegas da Universidade Shanghai Jiao Tong adotaram um enfoque diferente. Eles substituíram alguns componentes da folha de uma anêmona (Anemone vitifolia), mas mantiveram estruturas-chave da planta, alcançando um rendimento na absorção de fótons e na geração de hidrogênio que não havia sido obtido até agora.

Em vez de criarem uma folha totalmente artificial, os cientistas optarem por criar uma folha semi-artificial, mantendo estruturas da planta otimizadas pela natureza e de difícil reprodução.

Aproveitando a natureza

Inicialmente, eles mergulharam a folha natural em uma solução de ácido hidroclorídrico, o que permitiu a substituição do magnésio dos anéis de porfirina – uma parte essencial da estrutura fotossintética das plantas – por hidrogênio.

A seguir, as folhas foram tratadas com tricloreto de titânio, que substituiu as moléculas de hidrogênio por titânio.

Depois de secas, as folhas foram aquecidas a 500 °C, criando uma estrutura cristalizada de dióxido de titânio, um material que é largamente utilizado em células solares para aumentar sua eficiência. Na folha artificial, o dióxido de titânio serve como um catalisador para quebrar as moléculas de água.

A etapa de aquecimento também queimou a maior parte do material orgânico que ainda restava da folha original.

Preservando elementos naturais

Mas nem tudo da folha original se perdeu.

Permaneceram, por exemplo, as células superficiais parecidas com lentes, que capturam a luz vinda de qualquer direção, e os microcanais que dirigem os fótons até a parte mais profunda da folha.

Foram preservados também os tilacoides, estruturas com apenas 10 nanômetros de espessura que aumentam a área superficial disponível para a fotossíntese. São os tilacoides os responsáveis pela grande eficiência das folhas na geração de hidrogênio.

Estava pronta a folha semi-artificial. Para testá-la, os pesquisadores mergulharam-na em uma solução de 20% de metanol, que funcionou como um catalisador.

Ao ser iluminada com luz na faixa do infravermelho próximo, a folha artificial absorveu duas vezes mais fótons e gerou três vezes mais hidrogênio do que os catalisadores à base de titânio disponíveis comercialmente (P25-Degussa).

Abordagem promissora

Apesar de serem números promissores em relação ao que havia sido alcançado até agora, a conversão é ainda muito ineficiente e está longe de competir com a produção industrial de hidrogênio, que hoje é feita a partir do gás natural.

Mas a abordagem mostrou-se incrivelmente promissora. Afinal, aproveitar uma parte da estrutura já desenvolvida pela natureza é muito mais simples do que tentar sintetizar toda a estrutura fotossintética natural.

Além disso, o enfoque poderá ser futuramente estudado em conjunto com as células solares fotovoltaicas tradicionais.

Bibliografia:

Artificial Inorganic Leafs for Efficient Photochemical Hydrogen Production Inspired by Natural Photosynthesis
Han Zhou, Xufan Li, Tongxiang Fan, Frank E. Osterloh, Jian Ding, Erwin M. Sabio, Di Zhang, Qixin Guo
Advanced Materials
Vol.: Published online before print
DOI: 10.1002/adma.200902039

O primeiro grande teste

Nos últimos anos, o discurso da sustentabilidade foi repetido por milhares de empresas no mundo. A crise está colocando a “onda verde” à prova – e só as iniciativas mais consistentes devem sobreviver
 
Por Ana Luiza Herzog | 28.05.2009 | 00h01
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Revista EXAME – A Shell voltou a fazer parte de novo do ranking das empresas mais sujas e mais retrógradas do mundo… Depois de anos proclamando seu compromisso com a energia limpa.” Esta declaração foi feita por John Sauven, diretor executivo da operação inglesa do Greenpeace, a respeito da decisão anunciada em março pela petrolífera anglo-holandesa de abandonar seus investimentos em energias renováveis, como a eólica e a solar. Pressionada pelo impacto da queda do preço do barril de petróleo – desde julho de 2008 até agora o preço caiu quase 60% -, a Shell foi uma das primeiras a anunciar mudanças. A guinada foi justificada, sem nenhum constrangimento, por Linda Cook, principal executiva de gás e energia da companhia: “Somos executivos e colocamos o dinheiro disponível para investimentos naquilo que nos dará o melhor retorno. Se as renováveis fossem isso hoje, estaríamos colocando nosso dinheiro lá, mas não é o caso”. A Shell declara ter investido 1,7 bilhão de dólares nos últimos cinco anos em energias renováveis, biocombustíveis e tecnologias para captura e armazenamento de carbono. Daqui para a frente, porém, centrará esforços no desenvolvimento dos chamados biocombustíveis de segunda geração, ou seja, etanol extraído de diferentes tipos de biomassa, como bagaço de cana e lascas de madeira. Segundo a empresa, lidar com produção e distribuição de biocombustíveis é algo que tem mais afinidade com seu negócio atual – o dos combustíveis fósseis – do que a fabricação de painéis solares.

Para entender como a turbulência afetou a estratégia de sustentabilidade das empresas no Brasil, EXAME realizou, em parceria com o Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Fundação Instituto de Administração (Ceats-FIA), uma pesquisa com 81 companhias de médio e grande porte instaladas no país. Encerrado no final de maio, o levantamento mostra a situação dos investimentos das empresas nas esferas econômico-financeira, ambiental e social nos três anos anteriores à crise (de 2006 a 2008) e de setembro do ano passado até agora. A conclusão é que, impulsionadas pela pujança econômica dos últimos anos, muitas companhias vinham destinando um volume crescente de recursos para ações de sustentabilidade. De 2006 a 2008, 48% do universo pesquisado aumentou em até 21% os investimentos anuais para reduzir o uso de recursos naturais em suas operações e preservar ou regenerar ecossistemas. Os programas para diminuir emissões e resíduos também aumentaram em 43% delas. A situação era ainda melhor para o investimento social privado, dinheiro que as empresas repassam para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público: 51% das companhias aumentavam a cada ano os aportes nos projetos que gerenciavam diretamente ou por meio de suas fundações e institutos. Com a crise, a maioria das empresas optou por não aumentar os investimentos em sustentabilidade em 2009 – e, em alguns casos, até reduzir os valores em comparação ao ano anterior. A área mais afetada foi a de gestão ambiental, em que 14% das empresas entrevistadas afirmaram ter diminuído os aportes.

A fabricante de painéis de madeira Masisa, sediada no Paraná, é uma das companhias que optaram por preservar seus investimentos ambientais. No final de junho, a empresa colocará em operação em Montenegro, no Rio Grande do Sul, sua segunda fábrica. O projeto começou a sair do papel em 2007 e vai exigir 223 milhões de reais – 14% desse total em iniciativas ligadas ao meio ambiente. Nessa fábrica, toda a água usada nos processos fabris virá de uma lagoa de cerca de 3 hectares construída pela empresa (equivalente a três campos de futebol) que vem sendo enchida exclusivamente com água de chuva. “Numa crise, qualquer esforço para melhorar a ecoeficiência da operação passa a fazer mais sentido”, diz Jorge Hillmann, diretor-geral da subsidiária brasileira da Masisa. “Podemos sobreviver a uma estiagem de até quatro meses sem captar água no sistema e pagar por isso.” Mas não foram apenas os aportes ligados a ecoeficiência, fáceis de justificar sob a ótica da redução de custos, que a companhia levou à frente. A fábrica de Montenegro também terá um “lavador de partículas” – equipamento de 3,5 milhões de reais que impedirá que partículas muito finas de madeira resultantes da fabricação dos painéis sejam lançadas na atmosfera. “A legislação ambiental brasileira ainda não exige o seu uso”, diz Hillmann. “Estamos nos adiantando.”

A operação brasileira da suíça Tetra Pak, fabricante de embalagens longa vida, faz parte do grupo de 15% das empresas analisadas na pesquisa de EXAME que decidiram aumentar seus investimentos ambientais durante a crise. Sua bandeira verde é incentivar a reciclagem de seu produto por meio de programas educativos, campanhas institucionais e apoio a cooperativas de catadores. Em 2008, para colocar em prática essas ações, a Tetra Pak conseguiu que a matriz aprovasse uma verba de 8,5 milhões de reais – 70% maior que a de 2007. Neste ano, o desembolso chegará a 10 milhões de reais, o que permitirá, por exemplo, que a companhia veicule no segundo semestre em TV e rádio uma nova campanha institucional. O dinheiro extra da matriz permitiu também que a Tetra Pak fizesse algo que não estava nos planos: gastar 250 000 reais por mês na compra de 1 tonelada de embalagens longa vida coletadas pelas cooperativas. Com a desaceleração das atividades das empresas de papel e celulose – as principais compradoras das cooperativas -, o preço das embalagens usadas caiu cerca de 35% desde o início de 2008. Com receio de que essa queda desmotivasse a coleta, a Tetra Pak decidiu comprar o produto – para revendê-lo no futuro, quando o preço se estabilizar. “Depois de anos gastando energia e dinheiro para estruturar essa cadeia, seria péssimo para nós se a crise a desmantelasse”, diz Fernando von Zuben, diretor de meio ambiente da Tetra Pak. Há oito anos, o percentual de embalagens de longa vida reciclado no país era de 15%. No ano passado superou 26%.

Surpreendentemente, o corte dos aportes na esfera social foi o menos drástico. “Os investimentos sociais normalmente têm custo mais baixo que os ambientais”, afirma Elidia Maria de Novaes Souza, pesquisadora do Ceats e responsável pelo levantamento feito em parceria com EXAME. Quase 63% das empresas entrevistadas mantiveram seus investimentos nessa área e apenas 5% declararam ter feito alguma redução. Uma delas foi a gaúcha Gerdau (a siderúrgica confirmou os cortes, mas não deu detalhes da decisão). Cerca de 32% afirmaram ter aumentado os gastos nesse campo. Dentro desse universo está a operadora de telefonia Oi, que aumentou de 23 milhões de reais em 2008 para 30 milhões neste ano a verba para seu braço social, o Instituto Oi Futuro. O dinheiro será usado, por exemplo, para inaugurar duas escolas do programa Oi Kabum! nas cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Nas duas unidades que já existem, em Recife e Salvador, a cada ano 160 jovens carentes ganham conhecimento técnico para trabalhar com vídeo, computação gráfica e webdesign, entre outros temas. O Oi Futuro também ampliará a abrangência do programa Tonomundo, que leva internet e conteúdo didático para escolas públicas.

Aproximar-se das comunidades e de seus clientes é vital para uma companhia em expansão acelerada, como a Oi. “Além da qualidade do produto ou do serviço, a maneira como as empresas se relacionam com a sociedade é cada vez mais uma estratégia de diferenciação em relação aos concorrentes”, diz Fernando Rossetti, secretário executivo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). E a necessidade das companhias de manter uma boa imagem para com o público torna-se ainda mais importante em tempos de turbulência. “Sabe aquela velha história de cuidado com a reputação?”, diz Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. “Ela não foi abalada pela crise.” Por isso, qualquer mudança que a empresa faça em sua política de sustentabilidade neste momento deve ser conduzida com cuidado. Em outubro, 72 entidades selecionadas por meio de edital para começar a receber, ainda em 2008, apoio financeiro da Petrobras para seus projetos foram avisadas de que teriam de esperar até o início de 2009. “Havia muita insegurança em relação ao que ia acontecer no Brasil e no mundo e nós recebemos da direção a ordem de diminuir o ritmo dos repasses até que a coisa clareasse um pouco”, afirma Janice Dias, gerente de programas sociais da Petrobras. O anúncio foi suficiente para deflagrar um boato de que a estatal teria cortado o repasse de recursos para dezenas de ONGs – a situação só foi completamente contornada quando a Petrobras começou a fazer os depósitos para as organizações, em abril.

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A escassez de dinheiro tem obrigado as empresas a fazer escolhas. Se não há capital para levar adiante todos os projetos, o que deve ser priorizado? Essa foi a dúvida, por exemplo, da petroquímica brasileira Braskem, do grupo Odebrecht. Há cerca de dois anos, a empresa surpreendeu o mercado ao desenvolver um plástico com o etanol de cana-de-açúcar, matéria-prima 100% renovável. O “plástico verde” começará a ser produzido em escala industrial em 2011. E, após a eclosão da crise e diante de um prejuízo líquido de 2,4 bilhões de reais em 2008, os executivos da Braskem decidiram tirar recursos de projetos convencionais e manter os esforços no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. “Como nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento deve ser cerca de 15% menor que o de 2008, optamos por desacelerar estudos que hoje são menos estratégicos para o negócio e centrar nos renováveis”, afirma Luis Fernando Cassinelli, diretor de inovação da empresa. Um dos campos de pesquisa que foram deixados de lado foi o de nanocompósitos – partículas adicionadas ao plástico para que ele adquira diferentes propriedades.

Empresas que escolheram a rota da sustentabilidade há mais tempo estão agora descobrindo que ela pode torná-las menos vulneráveis à crise. A madeireira paraense Cikel, que exporta 80% de sua produção, está sofrendo com a queda mundial na demanda pelo produto. Ainda assim, espera crescer 5% neste ano e faturar 138 milhões de reais. A explicação é que 70% da madeira negociada pela empresa é certificada segundo os padrões do Conselho de Manejo Florestal (na sigla em inglês, FSC). E o produto que leva o selo verde teve queda de preço de 5% de outubro pra cá – ante 20% da madeira não certificada. Pequenos produtores agrícolas de países em desenvolvimento que obedecem a critérios sociais e ambientais e possuem selos do chamado comércio justo também estão sendo menos afetados pela desaceleração. Segundo a Fairtrade International, ONG com sede na Alemanha, hoje as vendas globais de produtos que seguem essas regras chegam a 3,2 bilhões de dólares. A tendência está atrelada ao comportamento de um grupo de grandes empresas de bens de consumo que, para conquistar consumidores engajados, declararam recentemente que pretendem comprar mais desses fornecedores. Entre elas estão Unilever e Starbucks, que deve dobrar o volume de café certificado vendido em suas lojas até o final do ano.

Por enquanto, quem mais perdeu com a crise foi o mercado de energias limpas. No Brasil, a escassez de crédito afetou fortemente o setor de etanol. Em questão de meses, esse mercado, que despontava como uma das grandes promessas da economia, despencou – e várias empresas se viram em dificuldades. Afundada em dívidas, a Santelisa Vale, segunda maior usina de açúcar e álcool do país, foi comprada em abril pelo grupo francês Louis Dreyfus Commodities. A Infinity Bio-Energy, criada há pouco mais de três anos com dinheiro de fundos estrangeiros e com uma dívida que hoje supera 1 bilhão de reais, entrou com pedido de recuperação judicial dias atrás. Segundo um levantamento feito pela New Energy Finance em janeiro, dos 135 projetos de usinas previstos para ser implantados no Brasil até 2012, 46% tiveram sua execução adiada e outros 6% foram abandonados. “Só as empresas muito capitalizadas estão conseguindo escapar desse terremoto”, diz Camila Ramos, chefe de pesquisa da New Energy Finance para a América Latina. No resto do mundo, a situação não é muito diferente. De acordo com a consultoria, no primeiro trimestre deste ano os investimentos em energias renováveis sofreram queda de 44% em relação aos últimos três meses de 2008. Se comparado ao mesmo período do ano anterior, o volume de 13,3 bilhões de dólares é ainda 53% menor. A boa notícia é que mais de 150 bilhões de dólares em pacotes governamentais verdes de estímulo – entre eles o do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama – devem trazer de novo à vida parte dos investimentos em renováveis. “Estamos vivendo um hiato”, afirma Liebreich, presidente da New Energy Finance. Ainda que advogando em causa própria, ele diz que a economia verde certamente vai voltar a atrair investidores no futuro – a previsão da consultoria é que os investimentos cresçam no segundo trimestre deste ano. E a razão é simples. “Nada mudou em relação à ameaça do aquecimento global.”

A verdadeira energia renovável

Com inovações tecnológicas – e um pouco de bom senso – é possível dar grandes passos rumo ao uso eficiente dos recursos que hoje se perdem pelo caminho eficiencia1
 
Imagem simulada de Masdar City: no deserto dos Emirados Árabes Unidos ficará o ambicioso projeto de eficiência energética
 
Por Luiza Dalmazo | 19.03.2009 | 16h28
 

Revista EXAME –

As fontes de energia mais comuns no mundo são quatro: petróleo, gás, urânio e carvão. Mas existe outra, conhecida como “o quinto combustível”, que sempre foi o patinho feio da história. Vem sendo deixada de lado há anos, mas tem potencial para se tornar um lindo cisne em tempos de preocupações com o meio ambiente. É um recurso limpo, barato, disponível e que reduz as emissões de carbono na atmosfera: a eficiência energética. Os primeiros passos nessa área foram dados durante a crise do petróleo, em 1973, mas não é preciso voltar tanto no tempo para entender do que está se falando. Aqui no Brasil a eficiência fez parte do dia-a-dia de cidadãos e empresas durante o apagão de energia de 2001. Muitas das práticas de economia aprendidas nas duas crises já foram incorporadas à rotina, e a economia não exige um esforço consciente. Mas é possível fazer muito mais. Com iniciativas para o aproveitamento adequado, a demanda esperada de energia elétrica pode cair até 38% no país na próxima década, o equivalente à geração de 60 usinas nucleares de Angra III ou à de seis hidrelétricas de Itaipu. “A economia poderia chegar a
33 bilhões de reais na conta nacional de eletricidade dos consumidores até 2020”, diz Karen Suassuna, analista do programa de conservação da organização não-governamental WWF-Brasil.

O primeiro ponto que precisa ser esclarecido quando se fala em economia de energia é que isso não significa abrir mão do conforto em casa. Também não quer dizer que será necessário reduzir a atividade econômica. Pelo contrário. A ideia por trás da eficiência energética é fazer o mesmo – ou mais – utilizando menos. Isso significa ter o bom senso de apagar a luz ao sair da sala, é claro. Mas o empurrão decisivo será dado com a adoção de novas tecnologias, como fez a rede varejista americana Wal-Mart. A empresa lançou há três anos um projeto ambicioso de redução das contas de luz em suas lojas em todo o mundo. As unidades brasileiras já registram quedas nos gastos de cerca de 15% em relação aos índices de 2005. “Mudamos desde os painéis do teto, para usar melhor a luz do sol, até as lâmpadas das geladeiras”, diz Elisabete Freitas, diretora de construção da rede. As lâmpadas a que ela se refere são as baseadas em diodos emissores de luz (LEDs, na sigla em inglês), que têm vida útil 50 vezes maior e consomem apenas um quinto da energia elétrica das incandescentes. No projeto da ponte Octavio Frias de Oliveira, um dos novos cartões-postais de São Paulo, a iluminação também utiliza a nova tecnologia, o que representa um custo 75% menor em comparação com as soluções tradicionais. Parece pouco quando se pensa nas lâmpadas de uma residência. Mas, tendo em vista que a iluminação é responsável por 19% de todo o consumo mundial de eletricidade, a substituição das lâmpadas incandescentes por LEDs é um passo enorme. “A iluminação passaria a responder por apenas 4% do consumo total”, diz Yoon Young Kim, vice-presidente da divisão de luz da Philips Brasil.

Plano arrojado

Alguns avanços são voluntários, como a substituição da iluminação pública, e outros ditados por regulamentação, como as metas impostas a fabricantes de eletrodomésticos de alto consumo, como geladeiras e aparelhos de ar condicionado. Há também um grande esforço em curso para racionalizar o uso de energia em edifícios, que podem responder por 40% do consumo nos países ricos, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas existem esforços que não buscam ganhos incrementais, e sim um olhar completamente inovador sobre a questão. A que talvez seja a ideia mais arrojada do mundo em eficiência energética vem do meio do deserto, mais precisamente dos Emirados Árabes Unidos. Batizado de Masdar City, o complexo que está sendo erguido em Abu Dhabi deve ser a primeira cidade 100% livre de emissão de dióxido de carbono. Com uma área de 6 000 quilômetros quadrados e uma população prevista de 50 000 habitantes, Masdar City quer ser um laboratório a céu aberto para experimentos com o uso racional da energia.

O plano é que Masdar use apenas 20% da eletricidade de uma cidade de tamanho comparável. A maior parte da energia virá do sol. Todo o lixo será reciclado, e o esgoto será convertido em combustível – que não será usado em carros, pois a ideia é que os deslocamentos sejam feitos em veículos movidos a eletricidade. O governo do emirado de Abu Dhabi quer que o empreendimento, avaliado em 15 bilhões de dólares, sirva de ímã para empresas que desenvolvem energia limpa. A GE já tem planos de se instalar na cidade, que terá um centro de pesquisas montado em cooperação com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Não deixa de ser irônico que o milagre de eficiência representado por Masdar City fique encravado na região que tem um dos maiores índices de consumo de energia per capita. A intenção dos árabes, porém, é aprender o máximo possível para um futuro em que o petróleo possa perder importância como fonte de energia. Outro objetivo do projeto é exportar para o resto do mundo o conhecimento aprendido com as novas técnicas desenvolvidas em Masdar.

A busca por eficiência energética também pode vir de lugares mais improváveis, como empresas de tecnologia da informação. Uma das ideias consideradas mais promissoras é a da chamada rede elétrica inteligente, ou smart grid, em inglês. Com a nova tecnologia, as empresas de distribuição teriam informação em tempo real sobre o uso de cada um de seus consumidores. De posse dessa informação, poderiam ser feitos melhor gerenciamento e convênios com os usuários para, por exemplo, oferecer descontos para quem concordar em ter o ar-condicionado desligado automaticamente em horários de pico. Os defensores da rede inteligente enxergam um futuro em que o serviço terá semelhanças com o de telefonia celular: quem usar a eletricidade em horários “nobres” pagará mais, e vice-versa.

Dotar de “inteligência” a rede elétrica não é um objetivo simples. Seria necessário distribuir sensores e chips num sistema antiquado, vasto e extremamente distribuído. Mas as pesquisas vão de vento em popa, e o plano é um dos pontos centrais da política energética do governo do presidente americano Barack Obama. Outra indicação do interesse das empresas do Vale do Silício no tema foi um recente anúncio do Google. O gigante da internet divulgou uma iniciativa batizada de Google Power Meter (medidor de energia). Trata-se de um software capaz de medir o uso de eletricidade de uma residência em tempo real, mostrando em um gráfico em que momentos do dia o consumo é mais alto e quais eletrodomésticos gastam mais. Por enquanto, o programa está apenas em teste – mas o fato de o tema do consumo responsável despertar o interesse de uma empresa como o Google já mostra o alcance da ideia da eficiência.

É claro que o interesse pela eficiência energética anda de mãos dadas com a atividade econômica. Com a desaceleração da economia mundial e a queda vertiginosa do preço do petróleo, é provável que o assunto não esteja no topo da agenda por algum tempo. Mas trata-se de um assunto que não poderá ser esquecido, como já ocorreu no passado. Um estudo do McKinsey Global Institute, braço de pesquisas da consultoria, indica que o uso mais racional da energia poderia garantir metade do esforço global de manter a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera em um nível aceitável de 550 partes por milhão. Inovar – e ter bom senso com um recurso tão precioso como a energia – é hoje uma questão de sobrevivência para o planeta.