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Evento discutirá gargalos e estratégias para uso da bioenergia

”]Fábio de Castro – Agência Fapesp – 17/03/2010

Cientistas de dezenas de países têm unido forças para superar uma série de obstáculos relacionados à produção sustentável de energia de biomassa, a chamada bioenergia.

Uma das principais iniciativas internacionais com esse objetivo – o projeto Global Sustainable Bioenergy (GSB) – trará ao Brasil, na próxima semana, alguns dos principais especialistas na área de bioenergia.

Bioenergia sustentável

Tendo em vista viabilizar, no futuro, a produção de bioenergia sustentável em larga escala – definindo estratégias para implementação de políticas públicas -, o projeto GSB é composto, em sua primeira fase, por uma série de cinco convenções internacionais. Cada uma tem o objetivo de fornecer uma plataforma para oportunidades, desafios e preocupações regionais e transnacionais relacionados à bioenergia.

A primeira reunião ocorreu em fevereiro na cidade de Delft, na Holanda. A segunda, com duração de três dias, terá início nesta quarta-feira (17/3) em Stellenbosch, na África do Sul.

A terceira etapa (The Latin American Convention of The Global Sustainable Bioenergy Project) será realizada entre os dias 23 e 25 de março na sede da FAPESP, em São Paulo.

As duas últimas reuniões estão programadas para junho, na Universidade Tecnológica da Malásia, na cidade de Skudai, e para setembro, nos Estados Unidos, na Universidade de Minneapolis.

Gargalos e estratégias para a bioenergia

De acordo com o organizador do evento latino-americano, Luís Augusto Barbosa Cortez, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a iniciativa pretende trazer respostas às incertezas relacionadas ao uso da bioenergia e, em última instância, pavimentar o caminho para a viabilização e implementação da produção global de bioenergia.

“O objetivo principal do projeto é promover o uso de bioenergia, discutir gargalos e definir estratégias nos cinco continentes. A reunião no Brasil será especialmente importante, pois o país é o melhor exemplo do uso de bioenergia em larga escala. E é também quem tem a maior promessa de expansão dessa matriz”, explica ele.

O eixo central dos debates na etapa brasileira do projeto GSB será a especificidade do uso de bioenergia no contexto latino-americano. O potencial para o uso de bioenergias no Brasil, segundo Cortez, é incomparavelmente maior do que nos outros países participantes do projeto.

“Nos Estados Unidos e na Europa, o potencial é maior caso a hidrólise enzimática seja um sucesso, pois esse conjunto de países tem sérias restrições em relação à área plantada e dependerá de culturas e do aproveitamento de resíduos agrícolas”, afirmou.

No caso dos países africanos, o potencial para expansão é grande, mas há limitações de outra ordem, particularmente relacionadas à falta de infraestrutura e de mão de obra especializada.

Substituição da energia fóssil por bioenergia

As convenções do GSB não são voltadas para discutir questões tecnológicas. O foco central são os obstáculos que limitam a expansão global da bioenergia. “Já será um grande passo identificar os gargalos e definir uma estratégia. A meta é conseguir que todos os países do mundo cheguem a substituir cerca de 25% da energia fóssil por bioenergia”, disse Cortez.

Um dos participantes de destaque na reunião latino-americana será Lee Lynd, do Dartmouth College (Estados Unidos), pioneiro na pesquisa em biocombustíveis que se dedica desde 1987 a estudos para o desenvolvimento de etanol celulósico. Lynd, presidente do comitê diretor do Projeto GSB, apresentará uma visão geral do projeto e fará a conferência de encerramento.

Outros destaques serão o físico José Goldemberg, que apresentará conferência sobre o impacto ambiental positivo dos biocombustíveis, Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que fará um pronunciamento no dia 24, e o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz.

O evento terá ainda a participação de cientistas estrangeiros como Tom Richard, da Universidade Estadual da Pennsylvania (Estados Unidos), Roldolfo Quintero, da Universidade Autônoma Metropolitana (México), John Sheehan, do Centro Nacional de Bioenergia (Estados Unidos), Emile van Zyl, da Universidade de Stellenbosch (África do Sul), e Patricia Osseweijer, da Universidade de Delft (Holanda).

Entre os brasileiros, participarão André Corrêa do Lago (Ministério das Relações Exteriores), Márcia Azanha (Universidade de São Paulo), André Nassar (Icone), Manoel Regis Lima Verde Leal (Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol) e os coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) Gláucia Mendes de Souza, Marcos Buckeridge e Heitor Cantarella.

Bioenergia em larga escala

Além da primeira fase, correspondente às cinco convenções que buscam os gargalos científicos para a produção em escala de bioenergia, o projeto GSB é composto de mais dois estágios.

O segundo estágio terá foco em uma questão: “É fisicamente possível chegar a uma fração substancial de fontes energéticas derivadas de plantas, na demanda futura de eletricidade e mobilidade no mundo, garantindo que a sociedade global consiga suprir outras necessidades importantes, incluindo alimentação humana, preservação do hábitat e manutenção da qualidade ambiental?”.

“O objetivo dessa fase será testar a hipótese de que é fisicamente possível conciliar a produção de bioenergia de larga escala com demandas competitivas de terra para essa finalidade”, disse Cortez.

O terceiro estágio será voltado para a discussão dos caminhos para a implementação da produção de bioenergia em larga escala, incluindo questões sociais, econômicas, políticas e éticas.

O objetivo será o desenvolvimento de políticas e estratégias para uma transição responsável para uma sociedade sustentável baseada globalmente em fontes bioenergéticas. “A partir das análises colocadas em perspectiva sobre todos esses fatores, o projeto tem a intenção de desenvolver recomendações para rotas de ação e políticas públicas”, disse.

O evento é isento de taxa de inscrição e as palestras terão tradução simultânea. Mais informações podem ser obtidas pelo site http://www.fapesp.br/gsb ou pelos telefones (11) 3838-4216 / 3838-4006.

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EUA reconhecem etanol brasileiro como biocombustível avançado

Fábio de Castro – Agência Fapesp – 05/02/2010

Biocombustível Avançado

A Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) anunciou que o etanol brasileiro de cana-de-açúcar reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 61% em relação à gasolina – o que o caracteriza como um “biocombustível avançado”.

O reconhecimento da EPA abre o mercado norte-americano e mundial para o etanol brasileiro e deverá contribuir para a redução das tarifas de importação impostas ao produto pelo governo dos Estados Unidos.

Mais pesquisas

Segundo os pesquisadores, isso aumenta ainda mais a necessidade de investimentos em pesquisas relacionadas ao biocombustível no Brasil.

“O governo dos Estados Unidos reconheceu algo que já estava bem claro para a comunidade científica. Trata-se de uma excelente notícia para o etanol brasileiro porque a disponibilidade de um biocombustível avançado e comercialmente viável é um elemento importante para a estratégia norte-americana de redução de emissões de GEE [gases de efeito estufa],” disse Luís Augusto Barbosa Cortez, professor Engenharia Agrícola da Unicamp.

“No entanto, a provável abertura do mercado criará uma demanda que só poderá ser suprida se tivermos um grande avanço tecnológico”, complementa ele.

Mais álcool com a mesma cana

Segundo Cortez, a necessidade de aumento da produção poderá ter tal magnitude que somente seria possível de ser realizada com investimentos em pesquisa para o aprimoramento do etanol de primeira geração e para o desenvolvimento da produção de etanol celulósico – que deverá aumentar a produtividade sem expansão da área plantada de cana-de-açúcar.

“Essa boa notícia precisa ser acompanhada de investimentos para que o etanol tenha melhores indicadores, como custo de produção, redução de consumo de fertilizantes, produtividade agroindustrial, condições de trabalho no campo e redução de queimadas. A sustentabilidade do etanol tem que ser considerada em suas dimensões ambientais, sociais e econômicas”, disse.

Consumo mínimo de biocombustíveis

De acordo com avaliação feita pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a decisão da EPA abre o mercado para a entrada de 15 a 40 bilhões de litros de etanol brasileiro nos Estados Unidos até 2022. A nova legislação norte-americana estabelece que o consumo mínimo de biocombustíveis deve ser de mais de 45 bilhões de litros anuais e, até 2022, esse volume deverá ser elevado para até 136 bilhões de litros.

“A decisão não abre o mercado apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, porque a EPA é reconhecida em todos os países e o etanol brasileiro provavelmente ganhará importância nas estratégias de redução de emissões de todos eles”, disse Cortez.

O pesquisador também coordena estudos sobre expansão da produção de etanol no Brasil visando à substituição de 10% da gasolina no mundo em 2025 por etanol de cana-de-açúcar, feitos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp.

O que é um biocombustível avançado?

Para ser considerado um biocombustível avançado, o etanol deve reduzir as emissões de GEE em pelo menos 40% em relação à gasolina. Artigos científicos indicaram que a redução do etanol brasileiro variava entre 60% e 90%, dependendo da metodologia de estudo. O etanol de milho norte-americano, em comparação, produz redução de cerca de 15%.

“Que eu saiba, por esse critério, não há nenhum outro biocombustível avançado comercialmente viável. O biodiesel europeu, que tem melhor desempenho, proporciona reduções na faixa de 20% a 30%. Os norte-americanos têm esperanças de conseguir essa classificação para o etanol de segunda geração, mas ele ainda não é comercial e quando estiver sendo produzido ainda será muito caro”, afirmou Cortez.

Protecionismo incoerente

O professor da Unicamp explica que o reconhecimento da EPA certamente ajudará a derrubar a tarifa de importação do etanol brasileiro nos Estados Unidos, que está estabelecida até o fim de 2010 em US$ 0,54 por galão.

A tarifa, estabelecida para proteger os produtores de etanol de milho nos Estados Unidos, é considerada um grande obstáculo para o produto brasileiro. Mas, segundo o cientista, o ideal é que elas sejam diminuídas gradativamente, com a criação de tarifas diferenciadas.

“Com essas tarifas eles protegem os fazendeiros, mas não reduzem as emissões o suficiente. Esse protecionismo é incoerente com as estratégias ambientais e deverá ser revisto. Mas é preciso que essa redução aconteça paulatinamente para que a indústria brasileira tenha tempo para se preparar para a imensa demanda que será gerada. Se a redução for repentina, isso poderá levar ao desabastecimento”, disse.

Desproporção

O reconhecimento da EPA do etanol brasileiro como biocombustível avançado não basta para que ele seja integrado à estratégia norte-americana, segundo Cortez.

“Para optar de fato pelo nosso etanol, eles precisarão analisar se o Brasil é um fornecedor seguro. O único jeito de garantir isso é aumentar a produção. Hoje, sabemos que uma simples alta na exportação do açúcar já é capaz de afetar o fornecimento de etanol no Brasil”, afirmou.

Cortez ressalta que hoje os Estados Unidos consomem cerca de 560 bilhões de litros de etanol por ano, enquanto o Brasil consome aproximadamente 40 milhões de litros.

“Se o mercado norte-americano começar a demandar uma quantidade importante como 5 ou 10 bilhões de litros por ano, isso vai afetar significativamente o mercado brasileiro. Esse mercado é muito sensível ao preço do açúcar em nível internacional e ao consumo de álcool em nível interno”, destacou.